sábado, 12 de junho de 2010

A fuga do real,
Ainda mais longe a fuga do feérico,
Mais longe de tudo, a fuga de si mesmo,
A fuga da fuga, o exílio
Sem água e palavra, a perda
Voluntária de amor e memória,
O eco
Já não correspondendo ao apelo, e este fundindo-se,
A mão tornando-se enorme e desaparecendo
Desfigurada, todos os gestos afinal impossíveis,
Serão inúteis,
A desnecessidade do canto, a limpeza
Da cor, nem braço a mover-se nem unha crescendo.
Não a morte, contudo.

Mas a vida: captada em sua forma irredutível,
Já sem ornato ou comentário melódico,
Vida a que aspiramos como paz no cansaço
(não a morte)
Vida mínima essencial: um início, um sono;
Menos que a terra, sem calor; sem ciência nem ironia,
O que se possa desejar de menos cruel: vida
Em que o ar, não respirando, mas me envolva;
Nenhum gasto de tecidos; ausência deles;
Confusão entre manhã e tarde, já sem dor,
Porque o tempo não mais se divide em seções; o tempo
Elidido, domado.
Não o morto nem o eterno: ou o divino,
Apenas o vivo, o pequenino, o calado, indiferente
E solitário vivo
Isso eu procuro.


Vida Menor - Carlos Drummond de Andrade.

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